
O Drama da Fé
"E (Moisés) mostrou-se firme como se contemplasse o Invisível." - Hebreus 11,7
Novas provações e novos desertos.
Se sempre foi áspera e difícil a rota da fé, em nossos dias as dificuldades aumentaram. Hoje, a Igreja está atravessando um novo deserto, como Moisés o fez em sua marcha a pé, deixando o "fértil" Egito. As dificuldades que ameaçam o peregrinos na fé hoje são de duas classes:
a) dificuldades intelectuais
A técnica desmoralizou convicções e costumes. A ciência dá explicações para o que antes se atribuía a divindades míticas ou se considerava atributo exclusivo de Deus. E surge um perigo: o de confundir o mágico com o sobrenatural, arrasar indiscriminadamente um com o outro, sem distinguir o trigo do joio.
Entretanto, nem a tecnologia nem tampouco as ciências sócio-psicológicas, jamais conseguirão dar uma resposta cabal à pergunta fundamental e única do homem: a questão do sentido da vida. Quem sou eu? Qual a razão da minha existência? De onde vim? Haverá futuro para mim? Que futuro?
Hoje não se fazem campanhas contra Deus, cheias de argumentos e de paixão. Simplesmente prescinde-se dele. Ele é abandonado como um objeto que já não serve. É um ateísmo prático, mais perigoso que o sistemático, pois penetra suavemente nos reflexos mentais e vitais.
Como conseqüência dessas idéias e fatos, surge o "horizontalismo", ideologia que debilita a fé e problematiza nossos solenes compromissos com Deus, porque diz que qualquer esforço aplicado ao que não pertence a este mundo é "alienação".
b) dificuldades vivenciais
Aceitaram, como critério de vida, o imediatismo, a eficácia e a rapidez. Ao contrário, a vida de fé é lenta e exige uma constância sobre-humana. Seu progresso é oscilante e não é comprovável com métodos exatos de medição.
Pela influência das ciências psicológicas e sociológicas, prevalecem, hoje em dia, os critérios subjetivos. O que era "objetivo", como as verdades da fé, as normas da moral ou do ideal, perdeu sua atualidade e valor, abrindo caminho livre para os valores subjetivos e instintivos. Hoje está em moda o emocional, o afetivo e o espontâneo.
Daí decorre o fato da completa desvalorização de certos critérios como o domínio de si mesmo, enquanto o comodismo se ergue como nova norma de comportamento. Não tem sentido, hoje em dia, a ascese, a superação, a privação, elementos indispensáveis na marcha para Deus.
A norma que praticamente foi adotada coincide em tudo com o ideal da sociedade de consumo: desfrutar a vida ao máximo, consumir o maior número de bens, dar-se o máximo de satisfações.
Hoje em dia, não se sabe o que fazer com o silêncio. A sociedade de consumo criou uma variada indústria para fomentar a distração e a diversão, e dessa maneira poupar o homem do "horror do vazio" e da solidão. Se dá largas à espontaneidade, filha do subjetivismo.
Vivemos no novo deserto. O caminho de Deus está eriçado de dificuldades. As tentações mudaram de nome. No tempo de Moisés a tentação era voltar à abundância do Egito. Hoje, as tentações são horizontalismo, hedonismo, secularismo, subjetivismo, espontaneidade, frivolidade.
Quantos peregrinos chegarão à Terra Prometida? Quantos abandonarão a dura marcha da fé? O horizonte está cada vez mais povoado de perguntas, silêncio e escuridão. É o preço da fé!
Estamos num processo de decantação. A fé é um rio que avança. A impureza se depositou no leito do rio, mas a corrente das águas continua...
Solução: Entrega e Abandono.
Como fez Abraão: "andar na presença de Deus" (Gn 17,1). Deus foi a inspiração de sua vida; foi também sua força e norma moral; foi, sobretudo, seu amigo. Abraão foi peregrino na fé.
Como fez Maria: "Faça-se em mim segundo sua palavra” (Lc 1, 38). Maria não SABIA, mas CONFIOU, teve fé. Maria foi peregrina na fé.
Extraído do livro "Mostra-me o teu rosto - para a intimidade com Deus" do Frei Ignacio Larrañaga - Ed.Paulinas. (Meu resumo livre de partes do capítulo II "Como se visse o invisível", parte 1 "O drama da fé").