Carta aberta à mãe do menino João Hélio, 6 anos, morto de forma cruel por assaltantes no Rio de Janeiro, dia 07/02/2007.
Mãe,
Conheço o tamanho da tua dor, que é a mesma do Élson e da
Aline. Para mim, é, também, uma dor vivida. A perda de um filho é, sem
dúvida, o maior de todos os sofrimentos. Por que tamanha provação?
Versões contemporâneas de Abraão? ‘Tome seu filho, o seu único filho
Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o, aí, em
holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar’. Por que,
então, o anjo de Javé não te ajudou a desatar aquela simples fivela,
de um cinto dito de segurança, que permitiria devolver aos teus braços
de mãe, o pequeno João Hélio, o Isaac dos nossos tempos, para que ele
permanecesse entre nós, dividindo e multiplicando sua alegria de vida?
‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?’
É nestes momentos que nos sentimos ínfimos, diante dos
desígnios do Criador. Pior: é, também, nestes mesmos momentos que
sabemos o quanto a humanidade se distanciou da Sua obra. Disseste,
‘eles não têm coração’. Eles têm! É que nós utilizamos os dons que nos
são ungidos e criamos, como novos deuses, a inteligência artificial,
enquanto desdenhamos os sentimentos mais sublimes e naturais, aqueles
que brotam, somente e semente, em corações fertilizados pelo amor e
pela fraternidade. Ao contrário, permitimos que florescesse, em muitos
corações, nas favelas e nos palácios, a barbárie. No Rio de Janeiro,
em São Paulo, em Brasília, em Washington ou em Bagdá. É a humanidade,
enquanto gênero humano, que se distancia dos seus próprios conceitos
de benevolência, de clemência e de compaixão.
Que tuas lágrimas não se percam, apenas, nos índices de
audiência e nos discursos de conveniência. Ao contrário, que elas
mobilizem corações e mentes para a reconstrução dos valores que
perdemos nessa travessia terrena. Em outros tempos, não tão distantes,
os valores morais e culturais se construíam sobre o tripé família,
escola e igreja. Hoje, a família foi dilacerada. A escola, sucateada.
A igreja, excomungada. No lugar, um novo, e perverso, tripé: a droga,
a rua e a arma. A droga, como estímulo. A rua, como palco. A arma,
como poder.
Ainda naqueles outros tempos, as famílias se reuniam para
contar, e para trocar, suas histórias de vida. Era um grande círculo
de amizade e fraternidade. Família, escola e igreja, ao mesmo tempo e
no mesmo espaço. Respeito, aprendizado e bênção. Pais heróis. Hoje, o
círculo familiar deu lugar a um semicírculo vicioso. No centro, a TV,
e os novos heróis são aqueles que mais atiram, que mais batem, que
mais matam. É a arte imitando a vida. Ou incentivando a morte. Ou
vice-versa.
Vim, vi e envelheci. Mas, por mais que possam tentar
tripudiar o meu discurso e a minha prática, porque, dizem, obsoletos,
não mudei. Continuo vivendo os valores que herdei. Da família, da
escola e da igreja. Para mim, não há diferença, na dor, entre o
favelado que puxa o gatilho nas esquinas e o dirigente que manda
despejar mísseis sobre cidades inteiras. Quantas serão as mães de
Bagdá, que choram a morte de seus pequenos inocentes, meninos da
guerra, trucidados em nome do poder e da ganância. Pior: ‘em nome de
Deus’. São, todos, bárbaros, cruéis, desumanos.
É essa a minha luta: resgatar o verdadeiro sentido de
humanidade. Que os homens retomem o projeto do Criador. Onde reina a
barbárie, de nada vão adiantar novas leis que não se cumprem; novas
punições, que servirão, tão somente, para alimentar a impunidade. Há
que se ressuscitar as letras mortas. E, isso se faz, somente, com o
grito estridente das ruas.
Como bem disseste, o teu filho não pode ser mais um
número nas estatísticas da violência. Como em outros casos tão
recentes, temo que a tua imolação seja esquecida, quando a comoção
dobrar a esquina. Talvez, a mesma esquina em que foste abordada, tão
covardemente. Mas, a tua dor, não. Nunca mais. A dor por um filho é
eterna. Ela nos acompanha, até que o encontremos, de novo, em outra
dimensão. Por isso, as tuas lágrimas têm que irrigar a indignação, que
hoje toma conta de estádios, de ruas e de lares. Das famílias, das
escolas e das igrejas. Quem sabe o sacrifício do teu filho signifique
o renascimento do tripé que suporta outros valores, que não a barbárie.
Somos parceiros, nessa dor. Em tempo: quando conversares
com o João Hélio, nos teus sonhos de mãe, diga-lhe que um menino
alegre, feliz, bonito e inteligente como ele irá procurá-lo, entre
todos os anjos. Diga-lhe que eles têm muito em comum na inocência de
criança. Ele partiu há alguns anos, mas, nas minhas mais belas
lembranças, continua o mesmo guri que me encantava a alma. Também
partiu precoce, como todas as vítimas de algum tipo de violência.
Diga-lhe que esse guri se chama Matheus. Eu já conversei com ele, nos
meus sonhos de pai.
Um abraço fraterno,
Senador Pedro Simon